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Heparina de Baixo-Peso Molecular Não é Melhor que Heparina Comum Para a Profilaxia de TVP no Perioperatório de Pacientes com Câncer, Embora, Seja Muito Mais Onerosa

Comentado por: Herlon Saraiva Martins

Metanálise e Revisão Sistemática. Heparina de Baixo-Peso Molecular Versus Heparina Não Fracionada para Tromboprofilaxia no Perioperatório de Pacientes com Câncer.

Akl EA, et al. Low-molecular-weight heparin vs unfractionated heparin for perioperative thromboprophylaxis in patients with cancer: a systematic review and meta-analysis. Arch Intern Med 2008, Jun 23;168(12):1261-1269.[Link Livre para o PubMed].

Fator de Impacto da revista: 7,920

Contexto Clínico:

Acredita-se que o paciente com câncer constitua um dos grupos de maior risco para trombose venosa profunda (TVP) e embolia pulmonar (EP) no pós-operatório, sobretudo, de cirurgia torácica, abdominal ou pélvica1. As opções incluem a heparina comum (heparina não fracionada; HNF) ou uma das heparinas fracionadas ou de baixo-peso molecular (HBPM).

Alguns autores consideram que a HBPM é melhor que a HNF nessa situação2, o que motivou a realização da atual revisão sistemática e metanálise.

O Estudo:

Busca de artigos randomizados e controlados que compararam esquemas de profilaxia de TVP/EP que incluíram pacientes com câncer e que um dos desfechos estudados foi morte.

A procura de estudos foi adequada (incluiu o MEDLINE, EMBASE e Cochrane Central Register of Controlled Trials) e foi realizada por dois pesquisadores independentes, embora, seja preferível, ser conduzida por três pesquisadores.

Estudos incluídos foram analisados quanto a qualidade metodológica (tamanho da amostra, qualidade da randomização, cegamento, intenção de tratar, seguimento etc).

O resultado foi expresso apenas pelo modelo randômico (random-effects model). Adicionalmente, cálculo de heterogeneidade e análise de sensibilidade foram realizados.

De maneira geral, é possível afirmar que a metanálise é de moderada qualidade, embora tenha havido a exclusão de 12 estudos (3.185 pacientes) polo fato de não se ter conseguido os dados do subgrupo de pacientes com câncer.

Resultados:

Um total de 14 ensaios clínicos randomizados (ECR) foram extraídos para a revisão sistemática (total de 5.822 pacientes), 12 ECR para a metanálise avaliando o desfecho incidência de TVP (total de 4.134 pacientes) e 5 ECR para o desfecho mortalidade (total de 2.854 pacientes).

Principais resultados:

Mortalidade: não houve diferença quando se comparou HBPM versus HNF (RR: 0,88; IC95%: 0,65-1,19).

Incidência de TVP: HBPM comparado com HNF 2 vezes ao dia: benefício maior com HBPM (RR: 0,66 (IC95%: 0,44-0,99).

Incidência de TVP: HBPM comparado com HNF 3 vezes ao dia: não houve diferença (RR: 0,78 (IC95%: 0,53-1,15).

Não houve qualquer diferença na incidência de EP, sangramento maior ou plaquetopenia).

Aplicação Para a Prática Clínica:

O paciente com câncer ambulatorial já tem maior risco de TVP/EP comparado com outras doenças (por exemplo, DPOC ou insuficiência cardíaca) e esse risco é ainda maior no período perioperatório, sobretudo, de cirurgia abdominal ou pélvica. Dessa forma, se não houver contra-indicação, é consenso que se deve prescrever tromboprofilaxia com heparina no período perioperatório. A dúvida é qual prescrever!

Nesse cenário, pode-se dizer que uma das duas condutas abaixo estão corretas:

Heparina não fracionada: 5.000 unidades, SC, 3 x dia

Heparina de baixo peso molecular (opções, dentre as várias):

Enoxaparina: 40 mg, SC, 1 x dia;

Dalteparina: 5.000 unidades, SC, 1 x dia

Considerações importantes:

O que a atual metanálise traz de novidade? Que não existe a superioridade da HBPM comparado com a HNF no período perioperatório de pacientes com câncer;

Impacto nos gastos dos sistemas de saúde: significativo, já que a HBPM é muito mais cara que a HNF, mas muito mesmo!

Limitação importante da metanálise: ter excluído 12 ECR pelo fato dos autores dos estudos originais não ter repassado os dados de subgrupos de pacientes com câncer.

Robustez da metanálise: ter mostrado que estudos de comparação direta (e não quando o paciente com câncer era apenas um subgrupo do estudo) da HBPM versus HNF não mostraram qualquer diferença entre eles.

Por último, gostaria apenas de lembrar que a profilaxia de TVP/EP em pacientes clínicos (IC, DPOC, infecções etc) deve ser feita preferencialmente com HNF, sobretudo, no sistema público de saúde, não só por que ela tem a mesma eficácia que a HBPM quando se avalia desfecho relevante (morte ou EP), mas pelo importante impacto na redução dos custos que essa estratégia traz.

Dicas de Epidemiologia e Medicina Baseada em Evidência:

Diferença de Revisão Sistemática e Revisão Narrativa

Revisão sistemática: revisão de um conjunto de dados, usando métodos e critérios pré-determinados, objetivando que se torne reprodutível, sobretudo, usando estratégias para evitar o viés. Obviamente, não é possível realizar esse tipo de revisão para assuntos extensos, por exemplo, um capítulo de livro de lúpus eritematoso sistêmico ou de acidente vascular cerebral. Mas é a melhor e mais fidedigna maneira de expressar uma revisão, por exemplo, tratamento da nefrite lúpica grave ou profilaxia primária de AVC isquêmico com anticoagulante oral.

Revisão narrativa: revisão feita por um ou mais autores, sem critérios especificados, de forma subjetiva, tornando quase impossível a reprodutibilidade dos dados. Isso aumenta a chance do viés, da revisão expressar apenas a opinião do autor ou de sua instituição, torna mais provável que as referências sejam selecionados segundo a opinião do formulador, ou mesmo de interesses de grupos econômicos. Entretanto, é a maneira possível de expressar a revisão de assuntos extensos (Tabela 1).

Tabela 1 – Revisão Narrativa e Revisão Sistemática

Revisão Narrativa Revisão Sistemática
Fornece um panorama geral, usualmente cobrindo todo um tópico Geralmente objetiva responder uma ou poucas  questões
Enfatiza um conhecimento por seqüências tais como: causa da doença, manifestações clínicas, fisiopatologia, tratamento, prognóstico, etc. Enfatiza tópicos específicos, tais como; pacientes com uma doença X , qual dos tratamentos disponíveis tem maior benefício
Suscetível à viés na seleção e avaliação dos estudos Usa métodos rigorosos, reprodutíveis, para minimizar o viés, tornando as conclusões mais valiosas
Geralmente não leva em conta tamanho e poder dos estudos, além do delineamento dos mesmos Geralmente critérios especificados, propiciam valorização de estudos com maior rigor científico

Não Esquecer ao Ler uma Metanálise

Ao longo dos artigos comentados, iremos discutir os tópicos descritos na tabela 2.

É importante lembrar que existem excelentes metanálises, mas existem péssimas metanálises (assim como existem ECR excelentes e péssimos). Uma metanálise deve abordar uma questão específica, identificar, selecionar e criticamente avaliar estudos relevantes, sintetizar a informação de forma clara e quantitativa e sintetizar as conclusões. Para que uma metanálise possa ter o maior rigor científico ela deve ser feita de uma forma sistemática, deixando muito claro ao leitor os seus métodos (Tabela 2).

Tabela 2 – Alguns dos Critérios Para Avaliar a Qualidade da Metanálise

Os resultados são válidos?
A metanálise foi direcionada para uma questão específica?Os critérios de inclusão para seleção de artigos foi adequada? A estratégia de busca foi adequada?

Os artigos excluídos foram “adequadamente excluídos”? É improvável que artigos relevantes tenham sido excluídos?

Aspectos metodológicos para evitar os vários vieses foram explicitados?

Os estudos selecionados passaram por uma avaliação?

A avaliação metodológica (qualidade do estudo) pode ser reproduzida?

Os resultados foram similares de estudo para estudo?

Quais foram os resultados?
Quais os resultados globais da metanálise (síntese dos dados)?

Qual a precisão dos resultados?

Houve diferença no tipo de técnica estatística usada (efeito randômico versus efeito fixo)?

Qual o resultado do cálculo de heterogeneidade? Foi significante?

Há diferença significativa na análise de sensiblidade (tamanho: estudos menores versus  maiores; metodologia: piores versus melhores; etc)

Os resultados podem ajudar no manejo do meu paciente?
Os resultados se aplicam ao meu paciente?

Prognósticos de relevância clínica foram considerados?

Os benefícios superam os riscos e os gastos?

Bibliografia

  1. Geerts WH, Pineo GF, Heit JA; et al. Prevention of venous thromboembolism: the Seventh ACCP Conference on Antithrombotic and Thrombolytic Therapy. Chest. 2004;126(3)(suppl):338S-400S. [Link Livre para o PubMed].
  2. Goldhaber SZ. Deep Venous Thrombosis and Pulmonary Thromboembolism. In Harrison’s Principles of Internal Medicine, McGraw-Hill, Philadelphia, 17th edition, 2008; Chapter 256, 1651-1657.

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