História e Metas da ABRAMEDE
Introdução
Emergências médicas, sejam clínicas ou traumáticas, são situações que oferecem risco iminente à vida ou à função vital. A sobrevida dos pacientes e/ou a minimização das seqüelas decorrentes destes agravos à saúde, dependem da adequada atuação de uma equipe multidisciplinar, com treinamento e disponibilidade específicos, passando, necessariamente, pelo reconhecimento precoce dessas situações, seguido da adoção de medidas propedêuticas e terapêuticas precisas e essenciais.
O conceito de que pacientes graves ou complexos devam ser recebidos e atendidos nas portas de entrada dos serviços de saúde por um “staff” disponível e especificamente treinado é contemplado nos países desenvolvidos e em alguns países em desenvolvimento
Em contraste, no Brasil, grande parte das emergências dos serviços de saúde, principalmente as que se localizam na periferia das grandes cidades, são entregues a profissionais mal preparados para o atendimento de pacientes críticos. É comum encontrarmos nos setores de emergência médicos ou enfermeiros recém egressos das universidades, ou mesmo com algum tipo de formação não específica que, por força de um mercado congestionado e competitivo, na busca do sustento, vêem-se obrigados a correr riscos, colocando em risco a vida de pessoas. Este cenário, construído ao longo dos anos, tem sido agravado pela superlotação dos serviços de emergência, decorrentes, entre outras, de uma política de saúde que engatinha na prevenção primária e de questões relacionadas a saneamento básico.
É nesse cenário, que a ABRAMEDE e seus sócios luta em prol do desenvolvimento da MEDICINA DE EMERGÊNCIA como ESPECIALIDADE no Brasil – status este que daria incentivo vital a centenas de médicos interessados em se dedicar – e principalmente unir forças – na melhoria do quadro de caos supracitado, qualificando o atendimento às emergências no país.
1) O que é medicina de emergência?
“Medicina de emergência é um campo da prática médica composto pelo conjunto de conhecimentos e habilidades necessário para a prevenção, o diagnóstico e o manejo de aspectos agudos e urgentes de doenças e lesões afetando pacientes de todas as faixas etárias, incluindo um amplo espectro de desordens físicas ou comportamentais; ela engloba o entendimento e respectivo desenvolvimento de sistemas médicos de emergência no pré-hospitalar e no intra-hospitalar, assim como as habilidades necessárias para o aprimoramento dos mesmos.”
International Federation for Medicine, 1991
2) Como surgiu, e como se encontra a Medicina de Emergência hoje no mundo?
Segundo dados do American College of Emergency Physicians (ACEP), o primeiro programa de Residência Médica em Medicina de Urgência dos Estados Unidos foi implantado em 1970, na University of Cincinatti. Em janeiro de 1972, foi publicado o primeiro JACEP, que, em 1980, veio a se tornar o Annals of Emergency Medicine, hoje o principal periódico específico de Medicina de Urgência. Em junho de 1976, formou-se o American Board of Emergency Medicine e, em setembro de 1979, a Medicina de Urgência passou a ser considerada uma especialidade médica pelo American Board of Medical Specialties e pela AMA. Em maio de 1980, os primeiros emergencistas foram certificados pelo American Board of Emergency Medicine. Atualmente, existem mais de 21 mil médicos associados ao ACEP
A prática da medicina de emergência hoje no mundo encontra-se dividida em duas vertentes – o modelo Anglo-Americano (visão da ABRAMEDE) e o modelo franco-germânico:
- Modelo Anglo – Americano (EMERGÊNCIA COMO ESPECIALIDADE): o cuidado dos pacientes graves nas emergências é providenciado por médicos especialmente treinados, que possuem capacidade para administrar uma ampla variedade de serviços para todos os pacientes que se apresentem em um departamento de emergência especialmente preparado. A Medicina de Emergência é reconhecida neste modelo como uma especialidade independente, com associações profissionais próprias (ACEM nos EUA, ). Existe uma plano estruturado de treino e educação (residências) para interessados na especialidade, e qualificações reconhecidas (educação continuada para não emergencistas).
Alguns países que adotam tal modelo: EUA, Reino Unido, Irlanda, Finlândia, Austrália, Nova Zelândia, Coréia do Sul, Israel, Cingapura, China, México, Peru, Nicarágua. Em 1996, a Itália – que até então considerava a medicina de emergência como um ramo da medicina interna – iniciou um programa de residência médica em medicina de emergência, começando a trocar o sistema anterior – Franco-Germâncio – para o modelo atual – Anglo-Americano.
- Modelo Franco-Germânico: em países como Alemanha, França, e Rússia, a medicina de emergência não é reconhecida como especialidade. A maioria dos médicos que atendem nas emergências provém de outras especialidades, tais como anestesiologia, cirurgia geral e medicina interna – situação muito semelhante à do Brasil hoje.
Na maioria dos países em desenvolvimento, o atendimento à casos graves é dado por ambulâncias terceirizadas, em serviços com corpo clínico composto por médicos recém-formados, sem qualquer pós-graduação, em postos de trabalho com péssimas relações trabalhistas, vistos em sua maioria como “empregos temporários”, pessimamente equipados e superlotados – situação encontrada hoje na maioria das emergências do Brasil!
3) Qual a história da Medicina de Emergência no Brasil?
O estudo da medicina de emergência no Brasil, seguindo o modelo anglo-americano, sempre esbarrou na ausência do reconhecimento da especialidade pela Comissão Nacional de Residência Médica e pela Associação Médica Brasileira: o estatuto vigente na maioria das universidades e hospitais escola impede que sejam abertas residências na área sem tal reconhecimento.
Isso levou à algumas instituições, como a Faculdade de Medicina da USP, a investir na graduação e pós-graduação strictu sensu para tentar suprir a falta de capacitação em emergências – assim foi criada, em 1992, a primeira disciplina estruturada de emergências clínicas do Brasil.
Paralelamente, alguns órgãos públicos, não relacionados ao estatuto de instituições de ensino, buscaram dentro de projetos pioneiros incluir ferramentas para a formação de pessoal capacitado… Surgia assim em 1996, na cidade de Porto Alegre, a primeira residência em Medicina de Emergência do Brasil estruturada de acordo com o modelo Anglo-Americano. Tal residência surgiu no momento em que a capital gaúcha criava uma das primeiras unidades do SAMU (Serviço de Atendimento Móvel de Urgências) a ser instalada no território nacional!
Tendo como “hospital sede” o Pronto-Socorro daquele município, e recebendo apoio da Secretaria Municipal de Saúde, a residência gaúcha teve seu curriculo original estruturado em 2 anos, contando com 2 vagas. Atualmente, a mesma residência consta com 18 residentes divididos em 3 anos de formação, os quais são preenchidos pelos seguintes estágios: emergência adulta, emergência pediátrica, rotinas de enfermaria (medicina interna), cardiologia, UTIs (clínica adulta, trauma, queimados e pediátrica), atendimento à politraumatizados, sala de ferimentos leves, traumato/ortopedia, pré-hospitalar, emergência obstétrica. Do corpo de formandos desta residência surgiu a AMERS (Associação de Medicina de Emergência do Rio Grande do Sul), em 2005.
Em 2007, realizou-se na cidade de Gramado o I Congresso Brasileiro de Medicina de Emergência. Naquele evento, foi transcrita a “Carta de Gramado”, a qual reafirmou diante da sociedade a impressão dos realizadores de que a situação dos serviços de emergência no país encontrava-se precária, sendo a oficialização de uma nova especialidade – A MEDICINA DE EMERGÊNCIA – um incentivo fundamental para a melhoria do quadro.
Em 2008, teve início em Fortaleza a 2º residência em Medicina de Emergência do país, tendo o apoio da Secretaria Estadual de Saúde do Estado do Ceará, nas dependências do Hospital
Em abril daquele ano, foi fundada na cidade de Porto Alegre a Associação Brasileira de Medicina de Emergência (ABRAMEDE), contando com representantes do Rio Grande do Sul, Paraná, Rio de Janeiro, São Paulo, Distrito Federal e Ceará. Ela substituiu a antiga SOBRAMEDE, fundada em 2001, com sede no Rio de Janeiro e subsede em Porto Alegre. Em junho, a ABRAMEDE foi reconhecida em Buenos Aires pela ALACED (Associacion Latino Americana de Cooperacion em Emergências y Desastres). Foi também em 2008 que os primeiros concursos públicos fora da supervisão da Secretaria Municipal de Saúde de Porto Alegre (SAMU Metropolitano, HPS de Canoas e Hospital de Clínicas de Porto Alegre) começaram a aceitar os certificados concedidos pela ABRAMEDE como pré-requisitos para concursos públicos de seleção.
O ano de 2009 promete ser de grandes avanços para o desenvolvimento da especialidade no país. Com o apoio de diversas sociedades (Sociedade Brasileira de Atendimento Integral ao Traumatizado – SBAIT; Sociedade Brasileira de Pediatria – SBP; Associação de Medicina Intensiva Brasileira – AMIB; Sociedade Brasileira de Cardiologia – SBC; Federação Brasileira de Gineco-Obstetrícia – FEBRASGO), está sendo solicitada à Comissão Nacional Mista de Especialidades o apoio ao reconhecimento do título de especialista em emergência!
Assim sendo, a ABRAMEDE e todos os seus partidários esperam que o II Congresso Brasileiro de Medicina de Emergência, a ser realizado em setembro do ano corrente, seja marcado como o primeiro em torno do tema “emergências” no Brasil que tenha, dentre seus participantes, médicos EMERGENCISTAS pela primeira vez titulados e apoiados pela classe médica a seguirem dedicando-se na qualificação do atendimento à população.
4) Qual a VISÃO da ABRAMEDE?
- É direito de todo cidadão receber cuidado emergencial de qualidade, em ambiente preparado e por profissionais capacitados e estimulados.
- O interesse dos pacientes é melhor servido quando o médico que o atende o faz em ambiente favorável e incentivador à sua escolha profissional como emergencista, possuindo associação de representação frente aos órgãos da Classe Médica.
- Existe um amplo conjunto de conhecimentos e técnicas únicos à medicina de emergência que requerem um contínuo refinamento e desenvolvimento da área.
- A residência médica em Medicina de Emergência é a forma mais eficiente de se adquirir e praticar tal conjunto de habilidades e conhecimentos específicos, tal como ocorre em outros campos da Medicina.
- Além de conhecimentos específicos ao emergencista, a ABRAMEDE reconhece que a Medicina de Emergência engloba o domínio de técnicas de outras especialidades, restringindo-se àquelas necessárias para a estabilização dos pacientes previamente ao seu encaminhamento para os demais especialistas.
- A ABRAMEDE defende que o cuidado emergencial de pacientes não basta ser tratado como área de atuação de outra especialidade, visto que a variabilidade dos casos encontrados nas emergências do país envolve o campo de atuação de áreas diversas como clínica médica, pediatria, neurologia, cirurgia, traumatologia, obstetrícia,anestesiologia, dentre outras – todas elas abordadas durante o processo trianual de formação do médico emergencista.
- Os médicos emergencistas possuem a responsabilidade de difundir o conhecimento acerca do cuidado emergencial para colegas de outras áreas que atuam nas emergências. A ABRAMEDE insere-se no contexto acima tendo como missão o desenvolvimento de programas de educação continuada, buscando para tanto parcerias com outras associações.
- A ABRAMEDE respeita e congratula os médicos das mais variadas formações que hoje prezam atendimento à população nas emergências, colocando-se no futuro à disposição como órgão de representação, titulação e educação continuada.
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