ABRAMEDE - Associação Brasileira de Medicina de Emergência

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Caso clínico da Semana (25/05/2010)

Homem de 38 anos de idade, evoluindo há um dia com quadro de desorientação têmporo-espacial e agitação. Segundo a sua esposa, há 4 ou 5 meses se queixa de cefaleia intermitente, palpitações e mal-estar com sudorese importante após a prática de exercício físico. Há uma semana, após consulta médica, foi diagnosticada hipertensão arterial, e iniciou-se o uso de atenolol 100 mg ao dia.

Ao exame físico, apresentava-se afebril, hidratado, anictérico e acianótico.
FC: 118 bpm;
FR: 22 irm;
SatO2: 98%;
PA: 240/145 mmHg igual em ambos os braços;
Glasgow: 14 (AO 4, RM 6, RV 4);
Neuro: sem déficits localizatórios.
Cervical: sem presença de adenopatia ou bócio;
Ap Resp: MV+, sem RA;
Ap CV: 2BRNF, sem sopros;
TGI: plano, flácido, RHA +, sem visceromegalias e massas palpáveis;
MMII: pulsos +, sem edema

Qual a principal hipótese diagnóstica?

Encefalopatia hipertensiva.
Paciente jovem sem antecedentes patológicos exceto hipertensão arterial recentemente diagnosticada, deu entrada no pronto-socorro com quadro de confusão mental e desorientação e pressão arterial extremamente elevada. Em pacientes com quadro confusional e valores muito elevados de pressa arterial, há chance de evento vascular cerebral, como acidente vascular hemorrágico intraparenquimatoso – o qual é associado a elevação de pressão arterial quando ocorre hipertensão intracraniana ou pode ser secundário à própria hipertensão arterial – e hemorragia subaracnoide frequentemente, associada a níveis elevados de pressão arterial. A encefalopatia hipertensiva é definida por síndrome cerebral orgânica aguda, que ocorre como resultado da falência da autorregulação da pressão cerebral e caracteriza-se pela tríade de hipertensão (em geral em altos níveis), alteração do nível de consciência e edema de papila.

Qual o diagnóstico do paciente na sala de emergência?

Feito o fundo de olho: papiledema e hemorragias retinianas difusas.
Isso sugere fortemente uma encefalopatia hipertensiva.

Qual o tratamento imediato correto?

Iniciar droga parenteral para controle de pressão arterial, sendo de escolha o nitroprussiato de sódio.
O nitroprussiato de sódio permite uma redução rápida, previsível e titulável da pressão arterial, sendo a droga de escolha em pacientes com emergências hipertensivas. O objetivo na primeira hora de tratamento é redução de 20% da pressão arterial média na primeira hora. Sua ação é de vasodilatador direto sem aumentar o retorno venoso, apresenta meia-vida curta o que é particularmente útil nessas situações.

Os exames laboratoriais do paciente demonstraram:
Ureia: 60 mg/dL;
Creatinina: 1,4 mg/dL;
Na: 139 meq/dL;
K: 4,7 meq/L ;
Gasometria: PH 7,40, PO2: 89 mmHg; PCO2: 40 mmHg; Bic: 24 meq/L;
Hb: 16, 2, sem outras alterações ao hemograma;
Urina 1: normal.

Devemos investigar hipertensão secundária neste paciente? Quais as principais causas?

Sim. A hipertensão de causa secundária deve ser suspeita nos casos de início precoce (antes dos 30 anos), tardio (após 50 anos), ausência de história familiar, descontrole inesperado da pressão arterial e hipertensão refratária. Outros sinais podem estar presentes. No caso o paciente apresenta hipertensão arterial com complicação aguda e descontrole inesperado. Portanto, há indicação de rastreamento de hipertensão secundária.

Causas:
Hiperaldosteronismo primário, hipertensão renovascular e doença renal. A hipertensão renovascular sempre foi considerada, juntamente com as doenças renais, a principal causa de hipertensão secundária, porém estudos recentes demonstram que o hiperaldosteronismo primário provavelmente é uma causa mais prevalente de hipertensão secundária com estatísticas demonstrando de 5 até 15% em algumas séries de pacientes com hipertensão com o diagnóstico.

Qual diagnóstico deve ser suspeitado nesse paciente?

Feocromocitoma. O paciente apresenta a tríade clássica do feocromocitoma (palpitações, sudorese, normalmente acompanhadas de HAS). A presença dessa tríade deve levantar suspeita imediata para o diagnóstico de feocromocitoma. Entretanto essa tríade ocorre em menos de 50% dos eventos em séries recentes. O sintoma de apresentação mais comum é o de HAS sustentada ou paroxística (90% em algumas séries, porém um terço dos pacientes normotensos em uma série de pacientes), essa hipertensão é caracteristicamente resistente à terapia medicamentosa e pode apresentar piora paradoxal com o uso de betabloqueadores como a que ocorreu no paciente deste caso, pois os betabloqueadores causam vasoconstrição por sua ação nos vasos. Esses pacientes frequentemente apresentam episódios de hipotensão na maioria das vezes postural, mas podendo aparecer sem essa correlação, o sintoma de mal-estar após o exercício pode ser secundário a esta manifestação. São consideradas indicações de pesquisa de feocromocitoma:

  • hipertensos jovens;
  • hipertensos com  IAM, AVC, arritimias e insuficiência renal;
  • episódios paroxísticos de hipertensão, palpitações;
  • hipotensão ortostática;
  • choque inexplicado;
  • história familiar de feocromocitoma e carcinoma medular de tireóide;
  • neurofibromatose ou neuromas cutâneos;
  • hiperglicemia;
  • miocardiopatia;
  • labilidade da pressão arterial;
  • hipotensão em resposta: anestesia e cirurgia;
  • parto;
  • procedimentos invasivos;
  • uso de drogas anti-hipertensivas;
  • evidência radiológica de massa adrenal.

Deve-se considerar que o paciente não apresenta alterações de urina tipo 1 sugestivas de doença renal glomerular, o potássio sérico é normal e o paciente não apresenta alcalose metabólica na gasometria arterial que falam contra o diagnóstico de hiperaldosteronismo (embora em séries recentes a maioria dos pacientes não apresente hipocalemia).

Comentários (9)

  1. 25/05/2010 às 00:16
    #1 Thiago Saraiva

    Parabens.. os casos estão sendo muito bem relatados e discutidos, sendo dado enfase merecida ao diagnostico diferencial..

  2. 25/05/2010 às 09:41
    #2 BRUNO VALE DE SOUZA

    Muito bom esse caso clínico!!!! Leva a pensar sobre os diagnosticos diferenciais.

  3. 25/05/2010 às 16:09
    #3 José Luciano

    Esse quadro de inicio agudo de confusão mental e rebaixamento do nivel de consciencia associado a HAS nesses niveis nos leva a pensar numa encefalopatia hipertensiva caracterizando o quadro como emergencia hipertensiva. O tratamento na sala de emergencia constitui na monitorização multiparamétrica, obtenção de acesso venoso com cateter hidrolisado, administração de oxigênio sob cateter nasal 6l/min, e realização de terapia antihipertensiva com nitroprussiato sol padrão iniciando em B.I. 5ml/h, aumentando gradativamente até conseguir uma redução de 20% da PA inicial. Transferencia do paciente para leito de UTI é necessária. com monitorização contínua de PA.

  4. 25/05/2010 às 21:58
    #4 Tarcylio Esdras

    Que caso interessante…. eh o tipo do caso q muitas vezes o paciente vai p casa sem investigação…. pra diagnosticar tem q se suspeitar…. parabens pelo caso

  5. 26/05/2010 às 09:23
    #5 sirio

    Otimo caso para avaliacao de crise de hipertensao arterial

  6. 26/05/2010 às 14:54
    #6 Leonardo Lucena Borges

    Caso muito interessante. Uma ótima base para a revisão de uma das emergências hipertensivas e seu diagnóstico etiológico diferencial…

  7. 27/05/2010 às 22:26
    #7 DURVAL

    Devemos observar que trata-se de paciente jovem, sem historia aparente de nenhuma doença cronica,sintomas ha mais ou menos cinco meses e níveis de pa muito altos,fc em 118 mesmo com uso de 100mg dia de atenolol e niveis de cretinina proximo ao máximo do normal.Deve-se tratar na emergencia como encefalopatia hipertensiva com ja muito bem abordado por Jose Luciano e a pesquisa de hipertensão secundaria deve ser obrigatoria.

  8. 08/06/2010 às 17:45
    #8 Juan Carlos Monasterio

    Parabens, ótimo caso para revisão dos diagnosticos diferencial das emergencias hipertensivas.

  9. 01/07/2010 às 22:41
    #9 Rodrigo Luciano

    Esse caso leva em consideração um ponto muito importante: muitas vezes esses pacientes graves são atendidos de maneira inadequada, ocasionando quadros de morbidade mais intensos…
    Parabéns pelo caso

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